No início do ano de 1941, Clarice Lispector passava férias em Maricá (RJ), para onde seu futuro marido, o diplomata Maury Gurgel Valente, lhe escreve em resposta a uma carta que recebera dela e que lhe causara forte impressão. 

Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1941

…toda essa xaropada. P.S.: Estou até em preparativos para o carnaval. Vou ao cinema, depois do jantar, ver Meu marido maluco, que dizem ser boa comédia. Arquivo Clarice Lispector /…

A forte amizade entre Clarice Lispector e o casal Mafalda e Erico Verissimo levou a escritora a convidá-los oficialmente para serem os padrinhos de seus filhos, Pedro e Paulo, três anos após o nascimento do segundo. Não é sem razão que Paulo Gurgel Valente, filho de Clarice, reconhece os Verissimo como avós e os melhores amigos de sua mãe..

Washington, 7 de setembro de 1956,
Sexta-feira, 10 horas a.m.

…em caso de uma afirmativa, quero anunciá-la às crianças. Na esperança do convite ser aceito, ouso assinar Comadre Clarice (sempre tive secreta inveja da comadre Luísa)[1] Clarice Lispector. Correspondências. Rio…

Moradora de Berna, na Suíça, desde abril de 1946, quando acompanhou o marido, Maury Gurgel Valente, em função diplomática, Clarice Lispector teve, dentre seus correspondentes assíduos, o amigo Lúcio Cardoso, por quem nutria profunda admiração. Como ele se demorasse na resposta às suas cartas, ela lhe enviou esta, em que não esconde seu desapontamento.  

Berna, 31 [de] outubro [de] 1946

…é grande, minha “aura” está acabando e o esforço desta comunicação é tão sobre-humano que mal tenho força de assinar Clarice Clarice Lispector. Correspondências. Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p….

Casada com o diplomata Maury Gurgel Valente desde 1943, Clarice Lispector acompanhou-o em todos os postos mundo afora. Na capital suíça ela deu à luz seu primeiro filho, Pedro, que de tão bonito o chamou também de Gildo, evocando a beleza de Rita Hayworth no filme Gilda, de 1946.

Berna, 11 [de] setembro [de] 1948

…William. O meu amor para vocês. Clarice P.S.: Aí vão dois instantâneos de Pedrinho no segundo dia, para vocês. Clarice Lispector. Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007, p. 198-199….

O lançamento do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, deu à estreante a convicção de seu futuro de escritora: sobre o livro, e em curto espaço de tempo, escreveriam os nomes mais importantes da crítica literária brasileira, entre os quais Antonio Candido, que viu na obra “performance da melhor qualidade”. Mas faltou um: Mário de Andrade, cujo silêncio até a data desta carta inquietou a romancista a tal ponto que ela, com graça intrigante, reivindica opinião. Lendo-a agora, tem-se a impressão de que Clarice quase desafia o papa do modernismo, tão segura parece se sentir como escritora.  

Belém, 27 de junho de 1944

…certas palavras duras. Peço-lhe que interprete minha carta como quiser, mas não veja nela falsa humildade. Desejo muito sinceramente que sua saúde esteja boa. Clarice Lispector Meu endereço agora é…