Dorival Caymmi e Jorge Amado se conheceram já adultos, em 1939, “apresentados por uns estudantes na avenida Rio Branco, entre o Café Nice e o Café Belas Artes”, lembra o cantor e compositor. A amizade se tornaria cada vez mais forte, como mostra esta carta em que Caymmi conta ao “irmão”, que estava morando na Inglaterra, novidades palpitantes de seu cotidiano, a que não faltam observações divertidamente maliciosas.

[Salvador, 30 de setembro de 1976]

Jorge meu irmão,

São onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Iemanjá pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína,[1] nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela sabe […]

Casado com a pianista Jocy de Oliveira por mais de uma década, o maestro Eleazar de Carvalho escreve-lhe esta última carta antes do divórcio. Nela, segundo Jocy em seu livro Diálogo com cartas, ele “deixa transparecer um lado poético e emotivo por trás de sua crosta enrijecida pela vida difícil que teve”.

S.l., 2 de outubro de 1971

Jocy, my love,

É um sábado à tarde. 2-10-71. Estou sozinho. O piano está mudo e coberto com uma rede. Uma rede nova, trazida do Ceará, de onde cheguei ontem, à noite, carre­gado de troféus. Troféus que o intervalo temporal de uma curta e longa, ao mesmo tempo, existência vem trazendo. Talvez fossem mais se […]

Preso e torturado durante o regime militar que vigorou de 1964 a 1985, o teatrólogo Augusto Boal exilou-se na Argentina, terra de sua mulher, a psicanalista Cecília Boal. Nesse período, recebeu convite da Secretaria de Cultura de Lisboa para integrar o núcleo de professores do governo português. A renovação de seu passaporte, porém, tinha sido recusada pelo governo brasileiro e só neste ano de 1976 aconteceria o julgamento que lhe permitiria, com o documento, mudar-se para Lisboa.

Buenos Aires, 3 de maio de 1976

Chico,

Ando nervoso, ansioso, querendo que esse julgamento recomece de uma vez, querendo ganhar de goleada, 10 x 2, mas aceitando um 7 x 6 e não querendo nem pensar no contrário. Fico com os olhos grudados no telefone esperando um chamado de Brasília gritando “Ganhamos!”. Vai ser hoje, amanhã, quando? Vamos ver.

Nessa fulminante […]

Aproveitando a melodia de um choro de autoria de Francis Hime, Chico Buarque escreveu a letra desta canção/carta dando notícias do Brasil ao amigo Augusto Boal, que estava no exílio, em Lisboa, durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Enviou-a em fita K7 e a gravaria no elepê Meus caros amigos, de 1976, com a participação da flauta de Altamiro Carrilho, do clarinete de Abel Ferreira, do bandolim de Joel Nascimento e, mais uma vez, com Francis Hime ao piano.

Rio de Janeiro, 1976

Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu […]

A troca de cartas entre Vinicius de Moraes e Chico Buarque a respeito de Valsinha mostra como foi a parceria para essa canção que encantou o público. Gravada por Chico no elepê Construção, de 1971, recebeu, no mesmo ano, as interpretações de Ângela Maria, no elepê Ângela, e do grupo MPB-4 em De palavra… em palavra…

Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo!

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três ideias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio morava […]