Na noite da votação das Diretas Já, movimento civil que exigia eleições presidenciais diretas no Brasil, a atriz Fernanda Montenegro escrevia ao amigo e dramaturgo Augusto Boal, com quem manteve constante correspondência durante o período em que ele esteve no exílio. Antes de enviá-la, Fernanda já podia dar a má notícia do resultado, como se pode ouvir na leitura em vídeo ao final da carta.[1]

Rio [de Janeiro], 25 de abril de 1984

…madrugada saiu sem nenhuma notícia mais. Manhã de 26/4. Vou pra São Paulo. Não sabemos o que vai acontecer. Um beijo. E até breve. Fernanda Acervo Augusto Boal Você pode…

No ano em que seria instaurado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), o Teatro de Arena estreava a Primeira Feira Paulista de Opinião, um espetáculo composto por seis peças escritas pelos mais importantes dramaturgos brasileiros à época, como Augusto Boal e Plínio Marcos. Às vésperas da estreia, a Censura ainda não havia liberado a montagem, o que motiva esta carta-manifesto de Cacilda Becker ao então diretor-geral da Polícia Federal do Brasil, general José Bretas Cupertino. O grupo teatral foi notificado por Brasília, que exigiu o corte de cerca de 80 trechos. Como um ato de “desobediência civil” à ditadura, os artistas decidem executar a Feira Paulista de Opinião na íntegra.

…companhia em questão necessita estrear prontamente.       Arquivo Augusto Boal/IMS [1] O sistema Coringa foi um modelo de montagem de peça com elenco reduzido criado por Augusto Boal

As dores do exílio são comentadas nesta carta de Augusto Boal ao também ator e diretor de teatro Gianfrancesco Guarnieri, que ficara no Brasil enfrentando, do lado de dentro, a ditadura militar que se instalou no país de 1964 a 1985.

Paris, 14 [de] fevereiro [de] 1979

…Milton, do Roberto da Riva, do Henrique, do Ruy, e vou parando, agora vou parando mesmo. Até breve, Guarnieri. Até. Acervo Augusto Boal [1] N.S.: Adolescentes rebeldes, em francês. [2]…

No aforismo que intitulou “Causa mortis”, Millôr já advertia: “Cinquenta por cento dos doentes morrem de médico”. É esse o teor do cartão-postal que envia ao dramaturgo e amigo Augusto Boal, exilado na França.

Rio [de Janeiro], 9 de dezembro de 1982

…cara tava precisando mesmo? Ou os doutores decidiram que ele precisava? Em suma, leva na galhofa que a saúde volta. Um grande abraço do oprimido (!) Millôr Acervo Augusto Boal

Aproveitando a melodia de um choro de autoria de Francis Hime, Chico Buarque escreveu a letra desta canção/carta dando notícias do Brasil ao amigo Augusto Boal, que estava no exílio, em Lisboa, durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Enviou-a em fita K7 e a gravaria no elepê Meus caros amigos, de 1976, com a participação da flauta de Altamiro Carrilho, do clarinete de Abel Ferreira, do bandolim de Joel Nascimento e, mais uma vez, com Francis Hime ao piano.

Rio de Janeiro, 1976

…Marieta manda um beijo para os seus Um beijo na família, na Cecília e nas crianças O Francis aproveita pra também mandar lembranças A todo pessoal Adeus Acervo Augusto Boal