Glauber Rocha e Ricardo Muñoz Suay se conheceram em 1969 durante o Festival de Cannes. Naquela edição do certame, o cineasta recebeu a Palma de Ouro de melhor direção por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Aos 40 anos, o baiano de Vitória da Conquista era o grande referente do Cinema Novo e um dos realizadores mais badalados do momento. Acompanhado de Pere Fages, outro produtor de cinema, Muñoz Suay se aproximou de Glauber na Riviera Francesa para lhe fazer uma proposta tentadora: liberdade total para filmar o que quisesse, com o elenco que quisesse, e 100 mil dólares. A única contrapartida era rodar na Espanha. Começava ali uma amizade, construída principalmente por cartas, que duraria até a morte de Glauber, em 1981.

Ainda em 1969, Suay inicia a correspondência entre os dois com uma mensagem para tratar de detalhes do projeto em andamento. No começo de 1970 Glauber chegaria à Catalunha para rodar Cabezas Cortadas, filme que conta a história de um tirano latino-americano exilado num castelo na Europa. Durante os meses em que o cineasta esteve no país do ditador Francisco Franco, a amizade com o produtor espanhol se intensificou. Glauber voltaria à Espanha algumas vezes e passaria alguns dias na casa de praia do amigo, na Costa Brava. 

Semanas depois da estreia de Cabeças Cortadas, no festival de San Sebastián, Suay envia nova missiva contando que a recepção do filme não foi das melhores: “Não pense que estou fodido pelo que aconteceu no festival de San Sebastián, pelo contrário. Nunca pensei que ‘Cabeças’ tivesse sucesso nesse festival (…) se lá estivemos é porque o governo nos obriga e nos dá 10% mais de ajuda estatal. De qualquer modo, o filme vencedor moral no festival é o teu. Os jovens e a crítica independente estiveram ao lado do teu filme. A crítica fascita e reacionária esteve contra. Estou muito contente de o ter produzido. Estou orgulhoso, acho que é o teu melhor filme e um dos mais significativos do mundo todo”. Meses depois, o produtor dá conta da nada animadora estreia comercial do longa nos cinemas: “Em Barcelona e em Madri (e também em Girona, onde esteve quatro dias), o filme teve uma vida difícil mas honrosa. Você sabe que eu não fiz esse filme para ganhar dinheiro”.

Durante mais de uma década, do Brasil, da França, de Cuba ou Portugal, Glauber enviou cartas (escritas à mão ou à máquina) ao amigo. Sempre muito carinhoso (“Mi querido Ricardo”, “Por favor me escreva ou telefone, gostaria muito de te ver e de te abraçar”), ora em português ora em portunhol, perguntava constantemente pela família do “seu irmão” e dava conta das novidades em sua vida profissional (os muitos projetos e ideias) e pessoal (as paixões, as separações, os filhos). Também falava muito dos conflitos políticos e ideológicos que enfrentava, como na carta de 1971: “Não quero continuar sendo Glauber Rocha o jovem revolucionário cineasta de terceiro mundo. Este papel é pesado para mim, é instrumentalizado pela esquerda e utilizado pela direita, eu sou um artista livre, não quero ter compromissos a nível moralista, profissional, cultural ou político”. 

No dia 13 de dezembro de 1975, duas semanas após a morte de Franco, o cineasta brasileiro escreve ao produtor de Cabeças Cortadas, de Paris: “Viva la muerte de Franco e viva Cabeças Cortadas, que é a biografia audiovisual do incônscio de Franco (…) e o mais genial é que quem pagou foi o Estado espanhol. Não tenho remordimentos, vi o filme esses dias e continua atual”. Embora fosse um filme sobre um ditador, o longa de Glauber não só recebeu luz verde da censura espanhola – o que não aconteceu no Brasil, onde só foi liberado em 1979 – como conseguiu subvenção estatal ao ser declarado de “interesse público”. Na mesma carta, o cineasta diz que, uma vez finalmente morto o caudilho, era a hora de se rodar outro filme na Espanha, a ser feito como da outra vez: barato, filmado em poucas semanas e sem roteiro. “É preciso fazer a segunda parte de ‘Cabeças’, o que acontece com os camponeses depois da morte do ditador?”, anota. Duas linhas abaixo, faz uma outra proposta: “Também posso fazer um dos seus filmes de terror [após o fracasso comercial de Cabeças Cortadas, a produtora de Suay tinha conseguido encontrar um bom filão com filmes de terror] tendo Franco como tema.” 

Após o fracasso comercial de Cabeças Cortadas, o diretor nunca mais conseguiu fazer um filme fora do Brasil. Nas cartas que escrevia ao “irmão” espanhol, Glauber falava sempre de muitas ideias e projetos em andamento e constantemente perguntava sobre a possibilidade de voltar a trabalhar na Espanha. Na última missiva que envia, de Sintra, em junho de 1981, anuncia que está preparando um novo filme, que se chamará O Destino da Humanidade. Conta que a companheira, Paula Gaitán, e os filhos estão bem e que a sua saúde “vai ótima”. Pede o endereço de Gabriel García Márquez para lhe enviar um exemplar do livro Revolução do Cinema Novo, que também envia a Suay, e pergunta se seria possível fazer um filme com Salvador Dalí. Na resposta, com data de 4 de agosto (18 dias antes da morte de Glauber), o produtor diz: “Li o teu livro e me interessou muito, embora, como quase todos os teus textos, o caos em ti seja uma forma de dialética”. 

Quando, com apenas 42 anos, o amigo brasileiro morreu, Suay escreveu para o El País um texto, em jeito de obituário, que começa assim: “Glauber Rocha fez sua a proposta da revolução permanente (…) Era um cinema em estado puro e as suas imagens, algumas muito belas, se moviam, assim como os personagens, em função dos símbolos a quem o realizador sempre recorria”. O produtor passa a falar de Cabeças Cortadas: “Quando Franco morreu, Glauber me telefonou empenhado em demonstrar que no nosso filme pulsava a sua premonição do trânsito do franquismo à monarquia. Subjetivismos à parte, a realidade é que continua nos comovendo a cena em que os pés do Tirano são banhados em sangue (..) num convite ao tiranicídio”. E termina seu texto, intitulado Loucura e lucidez de um cineasta, da seguinte forma: “Agora, nos últimos meses, vivia em Sintra, à espera de iniciar um filme produzido em Portugal. Há uns quinze dias me mandou a última missiva, cheia de delírios, com o afeto e a cordialidade de sempre. E me enviou o seu último livro, Revolução do Cinema Novo. Releio o título do último capítulo: Estão confundindo a minha loucura com a minha lucidez.”

* Parte da correspondência entre Glauber Rocha e Ricardo Muñoz Suay foi doada pela família do produtor espanhol à Filmoteca de Valência.