Detalhes da Carta

O lançamento do primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, em fins de 1943, deu à estreante a convicção de seu futuro de escritora: sobre o livro, e em curto espaço de tempo, escreveriam os nomes mais importantes da crítica literária brasileira, entre os quais Antonio Candido, que viu na obra “performance da melhor qualidade”. Mas faltou um: Mário de Andrade, cujo silêncio até a data desta carta inquietou a romancista a tal ponto que ela, com graça intrigante, reivindica opinião. Lendo-a agora, tem-se a impressão de que Clarice quase desafia o papa do modernismo, tão segura parece se sentir como escritora.  

Belém, 27 de junho de 1944

Mário de Andrade

Acostumei-me de tal forma a contar com o senhor que, embora temendo perturbá-lo e não lhe despertar o menor interesse, escrevo-lhe esta carta.

O fato do senhor não ter criticado meu livro serve evidentemente de resposta e eu a compreendo. No entanto, gostaria de bem mais do que o silêncio, mesmo que para sair deste sejam necessárias certas palavras duras.

Peço-lhe que interprete minha carta como quiser, mas não veja nela falsa humildade.

Desejo muito sinceramente que sua saúde esteja boa.

Clarice Lispector

Meu endereço agora é Belém, onde estou por tempos:
Clarice Gurgel Valente.
Central Hotel – Belém do Pará[1]

IEB (Instituto de Estudos Brasileiros)  – Museu da Literatura Brasileira (MLB)

[1] N.S.: Recém-casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, Clarice o acompanha a Belém, onde o marido devia permanecer como agente de ligação entre o Ministério das Relações Exteriores e as autoridades estrangeiras, residentes ou em trânsito.