Trecho: Carta de amor a Antônio Abujamra [Usuário: 441]
“A felicidade é uma ideia velha” era uma das minhas preferidas. Você sempre a dizia mostrando os dentes, em um leve risinho pornográfico, como quem violenta ilusões alheias pelo puro prazer de desvirginá-las. Eu gostava. Se soubesse com quanto lirismo eu costumava dourar nossa relação, me cuspiria na cara. Me pergunto, Abu, sobre quando pensou nessas frases e as disse pela primeira vez a alguém. Imagino de que modo as estreou, como em um espetáculo dirigido por você, com todos os espectadores prontos para serem despidos sob seu completo controle. Penso em como se coçava de tanta ansiedade por ver a reação dessas pessoas, em como deveria ter a saliva grossa debaixo da língua inquieta, em como seus olhos faiscavam diante da chance de reproduzir palavras ácidas e em como, ansioso, deveria apertar os dedos ao lançá-las no ar. Tamanha vontade de chocar deve tê-lo feito pronunciar sentenças, como a que citei, frente ao espelho, em voz alta e com pouca luz no rosto, só para ver como soavam em seu timbre apocalíptico.








