Afinal das contas você, justamen­te por ser um intelectual, não pode se alimentar de provérbios; não se esqueça que os provérbios também são uma derivação da lei da preguiça, um viver morrendo. Por exemplo: no fim quase da sua carta, você me pergunta se a arte “paira acima e independente, dominando a vida e não sendo domi­nada por ela”. Isso é provérbio, é simplório por demais. Que a arte, sob certo ponto, paire acima da vida, inda é possível aceitar, porque se servindo de elementos estéticos (a beleza, o material transpositor, a crítica da vida etc.) ela nunca é a vida mesma, e nos oferece uma síntese nova dessa mes­ma vida. A arte não há dúvida nenhuma que é uma espécie de mentira, mas no sentido em que você diz ao enfermo que ele está melhor ou à criança que, se ela brincar com fogo, mija na cama. Você não mente com a intenção de enganar, mas justo na intenção de atingir um beneficiamento maior. Mas por tudo isto mesmo, a arte jamais é indepen­dente da vida: há interdependência insolúvel e irrecorrível, que faz com que nem a vida domine a arte nem esta àquela. Não desligue assim proverbial­mente duas coisas que são a mesma coisa. Até como aspiração elas são a mesma coisa: pois tudo não aspira a uma vida melhor?…