Uma carta sem remetente ou destinatário, na qual se lê: “Meu caro, […] ficou difícil me dedicar a devaneios literários sem ser afetado pelos acontecimentos recentes no nosso país”. Assim começa Essa gente, quinto romance de Chico Buarque, lançado em novembro de 2019. A missiva, sabe-se depois, é do escritor carioca Manuel Duarte, protagonista e narrador principal, endereçada a Petrus Müller, seu editor. Em apuros financeiros, “num momento em que a crise econômica parece não ter arrefecido conforme se esperava”, Duarte desfia seus infortúnios na tentativa de obter mais um adiantamento dos royalties referentes ao livro que não consegue concluir. Na carta, uma breve amostra do que o afligirá nas páginas seguintes: bloqueio criativo, falta de dinheiro, ameaça de despejo, casamentos desfeitos, equívocos amorosos, dramas familiares.

Em torno de Duarte e suas desventuras arquiteta-se um romance engenhoso, de alto rendimento literário, tanto no nível estrutural (cite-se, por exemplo, o hábil uso da metanarrativa) quanto no nível do texto, que transita por diversos registros. Cartas, notificações judiciais, conversas telefônicas, reclamações em livro de condomínio ajudam a compor o mosaico narrativo ainda mais vário com a alternância de vozes. A um só tempo coloquial e apurada, a escrita de Chico também se abre ao humor e à dimensão lúdica da linguagem. Atente-se, na página 99, no saboroso palíndromo (“sonsa Maria Clara vê: de varal caíram asnos”) e no terceto decassilábico camuflado em prosa, num pequeno trecho metalinguístico (“Pretende até falar em decassílabos, enquanto trabalhar na tradução de Sonhos de uma Noite de Verão”).

Para além da elaboração ficcional e do trabalho diligente com a palavra, um aspecto peculiar se impõe como importante chave de leitura de Essa gente: sua ligação medular com o presente histórico. Na carta que abre o livro, datada de 30 de novembro de 2018, dois dias após a eleição presidencial, a menção aos “acontecimentos recentes no nosso país” é a primeira de muitas referências ao momento atualíssimo que pontuarão toda a obra. Integralmente ambientado no combalido Rio de Janeiro, o romance se desenvolve sob rigorosa marcação cronológica, dividido em seções (à maneira de capítulos) assinaladas com a data dos acontecimentos, como um diário. Excetuados os nove primeiros registros, compreendidos entre 13 de dezembro de 2016 e 9 de dezembro de 2018, a trama se desdobra ao longo de 2019, ou seja, em íntima e deliberada conexão com o Brasil de hoje.

A relação umbilical com o agora revela um país em franco retrocesso, tomado por um passadismo obtuso que Chico trata com boa dose de ironia. Em tempos de “crescente sentimento monárquico no país”, o romance traz à cena, por exemplo, “um jantar de gala no Palácio Guanabara” ocorrido em pleno abril de 2019, que reuniu, entre outros convivas, “herdeiros da Casa Imperial [e] autoridades militares e eclesiásticas […], servidos por maîtres e garçons em trajes de cavaleiros templários”. Curiosamente, a anacrônica soirée, animada por um coro de 32 castrati, celebrou o lançamento da campanha “Brasil: o Futuro é Hoje”. Descontado o tom anedótico, o trecho bem ilustra a perniciosa onda saudosista que nos tem submergido num obscurantismo nefasto, ávido de reeditar certa página infeliz da nossa história.

Os liames entre ficção e realidade tornam-se ainda mais estreitos quando o romance incorpora “notícias nebulosas do país”. Fragmentos como “a partir de hoje, por decreto presidencial, posso ter quatro armas de fogo em casa”; “soldados disparam oitenta tiros contra carro de família e matam músico negro”; “só que não era bandido, foi um gari que eles mataram pelas costas” aludem a tragédias reais, como os assassinatos do músico Evaldo Rosa, fuzilado por soldados do exército no subúrbio carioca, e do gari comunitário William de Mendonça Santos, baleado em ação da PM no Morro do Vidigal. Mas a ficção também toma parte na representação de nossa barbárie cotidiana, recrudescida a cada dia. Numa passagem, o advogado Fúlvio Castello Branco, que “não deixa de deplorar o vale-tudo da grana, a desigualdade social e outras tantas mazelas do país”, espanca, do nada, um mendigo deitado na calçada do Country Club. “Existe mesmo um misterioso elo entre compaixão e perversidade”, cogita Duarte em dado momento, detectando, machadianamente, o cínico consórcio entre humanitarismo de fachada e práticas desumanas, tão em voga nestes tempos.

No mesmo passo, referências difusas à distopia do “país onde viceja somente o comércio de armas” completam o retrato de nosso abominável estado de coisas: a “grilagem de terras indígenas na Amazônia, com a omissão, se não com o beneplácito, das autoridades”; a precarização das relações de trabalho (“sugiro que um ou dois funcionários tereceirizados assumam a faxina mais pesada na folga semanal do efetivo, sem onerar nossa folha de pagamento com encargos sociais”); a desimportância da cultura (“quem poupa uns trocados para o lazer não vai gastar com cinema nacional”); a perseguição a “gente de esquerda e intelectuais em geral”; a violência homofóbica contra “dois marmanjos que vinham no trem de mãos dadas e foram expulsos do vagão a pontapés”; o apego obcecado à lei de talião: “– É isso aí, mestre! Tem que acabar com a raça desses bandidos!”. Toda semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência.

Em Essa gente, Duarte celebrizou-se com seu livro de estreia, o romance histórico O eunuco do Paço Real, no qual se destaca “a meticulosa reconstituição dos costumes na corte de d. João VI, desde Lisboa até o Rio de Janeiro do início do século XIX”. Tal qual seu protagonista, Chico Buarque também compõe, matreiramente, uma espécie de romance histórico: de permeio com os dramas privados de Duarte, há uma voz pública dedicada a registrar e denunciar o que sucede, hoje, no Brasil.

Fincado no presente sombrio, Essa gente não deixa de especular sobre o futuro que nos espreita. A certa altura, a tradutora Maria Clara, ex-mulher de Duarte, manifestando “inconformismo em relação ao que estão fazendo com nosso país”, pergunta: “Será que ainda teremos nossa correspondência violada? Será que ainda incendiarão os nossos livros?”. A seguir, cenas dos próximos capítulos.


Chico Buarque lê Essa gente: