03/12/1960
Querido Papai Noel,
Meu nome é 2. Não quero pedir presentes, quero uma surpresa. Mas pelo menos quero e tenho de pedir 3 desejos. Primeiro; quero um armazenzinho de brinquedo. Segundo; quero uma pasta de escola. Terceiro; quero 3 cadernetas e 1 bloco grande e com pauta. Papai Noel, em todos os meus presentes eu quero um cartão. Escrito com a letra do Sr., em?



Não é fácil dar nome aos desejos. Frente à dádiva de algo a receber, talvez o mais fácil seja optar pelos presentes em vez de desejos. Os presentes são mais banais, mais pontuais: preciso de um tênis, adoraria ganhar uma viagem, daria tudo para ter aquele livro. Mas é na veia da emoção que o desejo circula: no aceno veloz de uma estrela que cai, na aparição súbita do gênio da lâmpada, no silêncio de uma sessão de psicanálise. Curiosamente, quando Ana escreve uma carta ao Papai Noel, aos oito anos de idade, deixa claro: “não quero pedir presentes”. Ela diz: “Quero e tenho de pedir três desejos”.
O mais curioso ainda é que a conta de seus desejos não fecha muito bem, o que pode ser limitação matemática de uma criança, uma estratégia sagaz (não se enganem, os números também podem ser prolixos) ou, ainda, uma particularidade dos desejos mesmo, que se multiplicam sem percebermos. Os três desejos são um armazenzinho de brinquedo; uma pasta da escola; 3 cadernetas; 1 bloco grande e com pauta e, além disso tudo, um cartão acompanhando cada presente. No total, se não me engano, são 10 itens entre cadernos, brinquedos, papéis e cartões. A maioria é de papel.
Nesse começo de diálogo com o Papai Noel, Ana faz também outra conta inusitada. Ali onde ela decide se apresentar, dizer seu nome, a criança revela na verdade um número: “meu nome é 2”. Faz sentido – Ana e Cristina. Mas, na verdade, seu nome é quatro – Ana, Cristina, Cruz e Cesar. Depois, seu nome será três: Ana Cristina Cesar, como sua poesia é assinada e publicada.
Topei com a carta ao Papai Noel enquanto pesquisava no arquivo do Instituto Moreira Salles. A carta em questão não está inserida diretamente em minha pesquisa, no entanto tem sido um certo objeto de fascínio, assim como outros documentos convencionais ali encontrados, como certidões, contratos com editora, livros, cartas a amigos, fotografias e alguns papéis impensáveis também, como um mapa astral e uma embalagem de chocolate.
Isso porque os desejos são materiais, mas alguns são também uma projeção de algo a vir. São folhas em branco: três cadernetas e um bloco grande com pauta. O papel sem dúvida habita o universo complexo do desejo: “hoje comprei um bloco novo/ a você bloco/ a você meu oco”. Depois a pasta, onde se organizam tais folhas, além de, ainda, conhecermos a famosa pasta rosa, uma multidão de papéis alinhados de onde críticos fizeram surgir novos livros de Ana C., após sua morte. Imagino uma criança rodeada por esse universo de papel, por essa quantidade de folha branca à disposição – para que algo se crie, para que algo cresça ali à ponta de um lápis, de uma caneta, de uma colagem. Além disso, há um pequeno desvio à conta inicial dos desejos: Ana pede que o Papai Noel lhe envie, junto com cada presente, um cartão de próprio punho, “com a letra do sr., em?”. O final dessa carta foi uma surpresa seguida de emoção incontida, quando recebi o arquivo digital no meio de um café em São Paulo.
Há algum tempo estudo a carta como objeto que, através de estratégias diversas, solicita uma resposta. É como a metáfora de uma relação, pedaço de um diálogo que frequentemente convoca um outro ausente. E Ana C. opera “poética da resposta” em suas cartas. Para mim, suas cartas são o grande exemplo dessa dinâmica. O que eu não imaginava era que uma carta ao Papai Noel conteria também esse apelo à resposta, e de uma forma tão especial, buscando a letra do velhinho, sua própria caligrafia como parte do desejo da criança.
Essa demanda coloca em xeque uma questão crucial que me parece uma artimanha infantil de primeiríssima categoria. Afinal, se o Papai Noel responder de próprio punho, então ele existe mesmo, aí não há dúvidas. Mas a carta, de maneira geral, também joga esse jogo. Se pensarmos em destinatários possíveis, um pouco menos polêmicos, a regra segue – no caso de distâncias importantes, é preciso que ele responda para que se ateste sua existência, para que se reconfirme, pela palavra, que aquele outro está ali, ele fala, quer dizer, ele não pode falar, então ele escreve.
A carta trabalha com esse milagre: trazer não só a palavra, mas o gesto desde a caligrafia, a escolha do papel, as mãos fechando o envelope e até a cor da caneta. No entanto, as cartas endereçadas ao Papai Noel abdicam de uma resposta. Talvez a resposta seja a própria realização do que foi ali pedido, porque se o Papai Noel trouxer o armazenzinho, a pasta, as cadernetas, então ele recebeu a carta e aqui está sua generosa resposta. A criança, remetente quase exclusiva dessa correspondência, via de regra, expõe seus pedidos e fala um pouco sobre si (“fui uma boa menina, só azul no boletim, cuidei de meu irmãozinho”), mas não faz parte dessa troca específica uma contrapartida, ainda mais um cartão escrito com a própria letra desse destinatário peculiar.
É exatamente por isso que esse papel salta aos olhos. A espontaneidade da escrita de uma criança acaba revelando, sem querer, um dos aspectos mais delicados e fortes de uma correspondência: o desejo de fazer com que a escrita vá e volte, de despertar no outro o desejo de escrever também, aliás, de me escrever, escrever para mim, com sua letra e seu empenho. Acho que podemos concordar que toda carta é uma espécie de presente do outro, talvez o mais intenso, porque é uma palavra que vem em nossa direção.
P.S.: até agora não foi encontrada a resposta do Papai Noel, mas sigo na busca, o arquivo é extenso.









