1927
Manu
Estamos numa paradinha pra cortar canarana da margem pros bois dos nossos jantares. Amanhã se chega em Manaus e não sei que mais coisas bonitas enxergarei por este mundo de águas. Porém me conquistar mesmo a ponto de ficar doendo no desejo, só Belém me conquistou assim. Meu único ideal de agora em diante é passar uns meses morando no Grande Hotel de Belém. O direito de sentar naquela terrasse em frente das mangueiras tapando o Teatro da Paz, sentar sem mais nada, chupitando um sorvete de cupuaçu, de açaí, você que conhece mundo, conhece coisa melhor do que isso, Manu? Me parece impossível. Olha que tenho visto bem coisas estupendas. Vi o Rio em todas as horas e lugares, vi a Tijuca e a Sta. Teresa de você, vi a queda da Serra pra Santos, vi a tarde de sinos em Ouro Preto e vejo agorinha mesmo a manhã mais linda do Amazonas. Nada disso eu lembro com saudades e que me extasia sempre ver, nada desejo rever como uma precisão absoluta fatalizada do meu organismo inteirinho. Porém Belém eu desejo com dor, desejo como se deseja sexualmente, palavra. Não tenho medo de parecer anormal pra você, por isso que conto esta confissão esquisita mas verdadeira que faço de vida sexual e vida em Belém. Quero Belém como se quer um amor. É incrível o amor que Belém despertou em mim. E como já falei, sentar de linho branco depois da chuva na terrasse do Grande Hotel e tragar o cigarro, sem vontade, só pra agir, isso me dá um gozo incontestavelmente realização de amor de tão sexual.
Quanto a este mundo de águas é o que não se imagina. A gente pode ler toda a literatura provocada por ele e ver todas as fotografias que ele revelou, se não viu, não pode perceber o que é. A gente já sabe da monotonia porém monotonia é a palavra mais estúpida deste mundo. Tem monotonias insuportáveis e tem monotonias que a gente não se cansa de gozar. Assim esta do Amazonas. Tem uma variedade prodigiosa se a gente põe reparo nela. E se não põe e se deixa prender por ela então é uma gostosura niilisante como não se pode imaginar outra, é sublime. Aliás tem sido bem relativa porque o Amazonas vai sendo camarada conosco, mostrando tudo o que possui, jacarés, até o morto descendo o rio e com a barriga estufada pra riba, bandos de garças de duzentas e mais, toda a passarada do museu Goeldi, todos os jeitos de tardes, de noites, de manhãs e meios-dias, e todos os peixes e frutas pro nosso paladar. Não sei se já contei pra você que por aqui vou bancando o jornalista célebre. Fazem tudo por nos agradar é lógico que por causa de Dona Olívia e eu passo por homem ilustre e uma grande inteligência aí do Sul. Só vendo quanta amabilidade e quanta coisa preparada só pra gente. Navegamos no mel. Se não fosse a cacetada dos protocolos oficiais, palavra que não faltava nada pra isto ser um paraíso pra mim. Imagine porém que até um discurso de improviso tive de fazer respondendo a uma saudação do Dionisio Bentes, presidente do Pará! Sou incapaz de improvisar. Falei um quarto de dúzia de coisas familiares e me assentei tremendo feito bobo. Pelo menos asneira creio que não saiu nenhuma não!
Vou tomando umas notinhas porém estou imaginando que viagem não produzirá nada não. A gente percebe quando sairá alguma coisa do que vai sentindo. Desta vez não percebo nada. O êxtase vai me abatendo cada vez mais. Me entreguei com uma volúpia que nunca possui à contemplação destas coisas, e não tenho por isso o mínimo controle sobre mim mesmo. A inteligência não há meios de reagir nem aquele poucadinho necessário pra realizar em dados ou em bases de consciência o que os sentidos vão recebendo. Estou ganzlich anializado e me observo porque não encontro aquela clarividência discricionária que pra uso pessoal sempre conservei, mesmo nos momentos de maior prazer. O [a]batimento intelectual é quase que completo. Vivo de arrastão numa vida de pura sensibilidade. O gozo que passa morre sem comparação sem crítica nem mesmo posterior, estou quase irracional. Aliás esta carta bestíssima prova isso mais que qualquer afirmativa minha.
Amanhã chegamos em Manaus. A merda dos protocolos vai recomeçar. Felizmente que somos decididos e sabemos não prender nem prejudicar com isso. E creio que não te escrevo mais. Esta carta está me deixando numa tristeza que você não imagina. Estou besta. Enquanto a besteira durar vou ficar quietinho sem pegar no lápis mais.
Um abraço do
Mário
Correspondência Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Organização, introdução e notas de Marcos Antonio de Moraes. São Paulo:Edusp/IEB, 2000








