1931
Meu ilustre e sempre comentado escritor.
Não imagina a intensa e comovida surpresa com que ontem, no segundo volume do seu Meu dicionário de cousas da Amazônia ao ler a página 146 o verbete sobre Theodor Koch Grünberg (naturalmente o sr. se refere a Koch-Grünberg, ou em nossa letra, Koch-Gruenberg), topei com a referência a meu nome e a defesa que faz de mim. Mas, como esta minha carta é pública pra demonstrar a admiração elevada que tenho pelo escritor de Na planície amazônica, acho melhor citar o trecho do seu livro pra que os leitores se inteirem do que se trata:
‘Os maldizentes afirmam que o livro Macunaíma do festejado escritor Mário de Andrade é todo inspirado no Vom Roroima zum Orinoco do sábio (Koch-Gruenberg). Desconhecendo eu o livro do naturalista germânico, não creio nesse boato, pois o romancista patrício, com quem privei em Manaus, possui talento e imaginação que dispensam inspirações estranhas.’
Ora apesar de toda a minha estilizada, exterior e conscientemente praticada humildade, me é lícito imaginar que, embora o sr. não acredite na malvadeza desses maldizentes, sempre a afirmativa deles calou no seu espírito, pois garante o boato para garantir com incontestável exagero o meu valor. Sempre tive a experiência da sua generosidade, mas não deixou de me causar alguma pena que o seu espírito sempre alcandorado na admiração dos grandes, preocupado com sucurijus, tão tamanhas e absorventes como Hartt, Gonçalves Dias, Washington Luís, José Júlio de Andrade, presidentes, interventores, Ford e Fordlândia, se inquietasse por um pium tão jito que nem eu. E para apagar do seu espírito essa inquietação tomo a desesperada ousadia de lhe confessar o que é o meu Macunaíma.
O sr., muito melhor do que eu, sabe o que são os rapsodos de todos os tempos. Sabe que os cantadores nordestinos, que são nossos rapsodos atuais, se servem dos mesmos processos dos cantadores da mais histórica antiguidade, da Índia, do Egito, da Palestina, da Grécia, transportam integral e primariamente tudo o que escutam e leem pros seus poemas, se limitando a escolher entre o lido e o escutado e a dar ritmo ao que escolhem pra que caiba nas cantorias. Um Leandro, um Ataíde nordestinos, compram no primeiro sebo uma gramática, uma geografia, ou um jornal do dia, e compõem com isso um desafio de sabença, ou um romance trágico de amor, vivido no Recife. Isso é o Macunaíma e esses sou eu.
Foi lendo de fato o genial etnógrafo alemão que me veio a ideia de fazer do Macunaíma um herói, não de “romance” no sentido literário da palavra, mas de “romance” no sentido folclórico do termo. Como o sr. vê não tenho mérito nenhum nisso, mas apenas a circunstância ocasional de, num país onde todos dançam e nem Spix e Martius, sem Schlichthorst, nem von den Steinen estão traduzidos, eu fançar menos e curiosear nas bibliotecas gastando o meu troco miudinho, miudinho, de alemão. Porém Macunaíma era um ser apenas do extremo-norte e sucedia que a minha preocupação rapsódica era um bocado maior que esses limites. Ora coincidindo essa preocupação com conhecer intimamente um Teschauer, um Barbosa Rodrigues, um Hartt, um Roquette Pinto, e mais uma três centenas de contadores do Brasil, dum e do outro fui tirando tudo o que me interessava. Além de ajuntar na ação incidentes característicos vistos por mim, modismos, locuções, tradições ainda não registradas em livro, fórmulas sintáticas, processos de pontuação oral, etc. de falas de índio, ou já brasileiras, temidas e refugadas pelos geniais escritores brasileiros da formosíssima língua portuguesa.
Copiei, sim, meu querido defensor. O que me espanta e acho sublime de bondade é os maldizentes se esquecerem de tudo quanto sabem, restringindo a minha cópia a Koch-Gruenberg, quando copiei todos. E até o sr. na cena de Boiuna. Confesso que copiei, copiei às vezes textualmente. Quer saber mesmo? Não só copiei os etnógrafos e os textos ameríndios, mas ainda, na “Carta pras icamiabas”, pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais, e devastei a tão preciosa quão solene língua dos colaboradores da Revista de Língua Portuguesa. Isso era inevitável pois que o meu… isto é, o herói de Koch-Gruenberg, estava com pretensões a escrever um português de lei. O sr. poderá me contradizer afirmando que no estudo etnográfico do alemão, Macunaíma jamais teria pretensões a escrever um português de lei. Concordo, mas nem isso é invenção minha pois que é uma pretenção copiada de 99 por cento dos brasileiros! Dos brasileiros alfabetizados.
Enfim, sou obrigado a confessar duma vez por todas: eu copiei o Brasil, ao menos naquela parte em que me interessava satirizar o Brasil por meio dele mesmo. Mas, nem a ideia de saritizar é minha pois já vem de Gregório de Matos, puxa-vida! Só me resta pois o acaso dos Cabrais que por terem em provável acaso descoberto em provável primeiro lugar o Brasil, o Brasil pertenceu a Portugal. Meu nome está na capa do Macunaíma e ninguém poderá tirar. Mas só por isso apenas o Macunaíma é meu. Fique sossegado. E certo de que tem em mim um quotidiano admirador.
Mário de Andrade









